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Anand van Zelderen: pensar a IA como um “colega digital”
Anand van Zelderen é professor assistente de inteligência artificial e negócios e membro do SKEMA Centre for Artificial Intelligence, no campus Grand Paris. A sua investigação centra-se nos “custos socioemocionais” que surgem quando os colaboradores interagem com agentes de inteligência artificial. Pioneiro na investigação experimental em management, desenvolve “synthetic field studies”, uma abordagem que combina IA e realidade virtual para simular ambientes organizacionais realistas, mantendo um quadro experimental rigoroso.
Pode apresentar-se brevemente e explicar o foco da sua investigação?
Enquanto investigador, estudo a forma como a tecnologia transforma as nossas vidas profissionais. Com base na minha formação em psicologia organizacional experimental, analiso as mudanças nos comportamentos, nas cognições (formas de pensamento, nota da redação) e nas emoções dos colaboradores como consequência direta dos novos paradigmas digitais do trabalho. Sou guiado, acima de tudo, por uma ambição moral.
A meu ver, ao contrário do que muitas vezes se pensa, o principal desafio da IA não é tecnológico: é profundamente humano.
No meu trabalho, isso traduz-se numa convicção: as novas tecnologias não devem servir apenas os interesses dos acionistas, mas contribuir para construir um futuro do trabalho sustentável e centrado no ser humano. Esta perspetiva parece-me urgente, porque, para cada 300 pessoas que desenvolvem, otimizam ou integram IA nas organizações, apenas uma se interroga verdadeiramente sobre o seu custo humano.
Os seus trabalhos centram-se na interação entre humanos e agentes autónomos de IA: quais são hoje as questões que orientam a sua investigação?
A questão que atravessa toda a minha investigação é a seguinte: que dimensões da nossa humanidade corremos o risco de perder com a disseminação da inteligência artificial, e deveríamos preocupar-nos mais com isso? Hoje, os agentes de IA assumem progressivamente funções humanas essenciais, sejam professores, terapeutas ou outras funções sociais. Já não podemos considerar a IA como uma simples ferramenta.
“Para mim, ensinar consiste em formar espíritos críticos tanto quanto profissionais atentos.”
Em management, devemos agora pensar estes agentes como uma espécie de “colega digital”. Isso levanta novas questões sobre autonomia humana, espírito crítico, inteligência emocional e até sobre o sentido que os indivíduos conseguem preservar no seu trabalho. A meu ver, ao contrário do que muitas vezes se pensa, o principal desafio da IA não é tecnológico: é profundamente humano.
Também estuda métodos experimentais que combinam IA e realidade virtual. O que permitem compreender melhor nas organizações?
A realidade virtual é uma ferramenta poderosa para simular ambientes organizacionais e tornar concretos cenários hipotéticos para os participantes dos estudos. Permite manter um elevado nível de controlo experimental e, assim, produzir resultados causais sobre práticas ou políticas organizacionais, sem sacrificar o realismo das situações observadas.
A IA generativa acrescenta uma nova dimensão: permite povoar estes ambientes simulados com atores programados capazes de representar um dirigente, um colega ou um cliente. Isto oferece uma compreensão mais precisa da forma como determinadas intervenções influenciam os comportamentos e as atitudes dos colaboradores em relação à sua organização. Estas ferramentas também permitem estudar os “colegas digitais”, atribuindo uma aparência humana aos agentes de IA.
O que pretende transmitir aos estudantes através do seu ensino?
A minha abordagem pedagógica baseia-se num equilíbrio entre teoria e aplicação concreta. Quero que os estudantes compreendam não apenas o que funciona nas organizações, mas também porque funciona, em que condições e com que consequências a longo prazo. Para mim, ensinar consiste em formar espíritos críticos tanto quanto profissionais atentos.
Também procuro mostrar-lhes que uma obsessão excessiva pela eficiência e pela rentabilidade conduz frequentemente as organizações na direção errada, enquanto um crescimento mais sustentável nasce de uma perspetiva verdadeiramente centrada no ser humano, que atribui tanta importância ao desenvolvimento das pessoas quanto ao desempenho.